Crianças que precisam de ajuda

Partilha de artigo da revista Pais&Filhos, da autoria de Paulo Oom (Pediatra). É fundamental estarmos informados e atentos.

Neste artigo são abordados diversos pontos, nomeadamente quais as doenças psiquiátricas mais comuns, sinais e sintomas e como agir nestes casos.

Muitos pais pensam que isso é impossível. Principalmente pensam que é impossível com o filho deles. Mas, de facto, muitas vezes de forma indolente, com pequenos sinais, tantas vezes desvalorizados ou erradamente justificados, outras vezes de forma mais abrupta, intempestiva e brutal, as crianças podem manifestar algum distúrbio psicológico, mais ou menos grave.

As crianças podem ter doenças psiquiátricas?

É uma verdade que as doenças mentais não são um exclusivo dos adultos. Para ser mais correto, uma em cada vinte crianças tem algum tipo de doença mental, suficientemente importante para dificultar o seu relacionamento com os seus colegas, amigos ou familiares. Na realidade, dizem os especialistas nestas áreas, a maioria das doenças psiquiátricas começa mesmo na infância e adolescência. Para ser mais específico, estima-se que metade de todas as doenças psiquiátricas do adulto começa até aos 14 anos e que dois terços são já evidentes aos 24 anos. Algumas podem mesmo começar mais cedo como as que têm a ver com ansiedade exagerada, que estão muitas vezes presentes antes dos dez anos.

Quais as doenças psiquiátricas mais frequentes nas crianças?

Tal como no adulto, as doenças psicológicas mais frequentes das crianças podem ser agrupadas em três grandes grupos.O primeiro grupo é de longe o mais frequente. Diz respeito às doenças relacionadas com uma ansiedade exagerada. Esta ansiedade pode ser provocada pelas mais diversas situações, como a separação de alguém querido (a ansiedade de separação), um medo exagerado de algum animal ou objeto (fobia), ou um comportamento obsessivo, por exemplo com a limpeza e higiene. Muitas vezes é uma ansiedade mal explicada ou motivada por acontecimentos do dia-a-dia, como um teste, um exame ou uma discussão com colegas ou amigos.

O segundo grupo diz respeito às crianças com problemas de impulsividade e que não conseguem controlar os seus instintos. A criança impulsiva é aquela que, tipicamente, tem dificuldade em esperar pela sua vez. Para além disso, frequentemente interrompe conversas ou jogos de outros, mesmo dos adultos. É o que os pais chamam de uma criança persistentemente inconveniente. O exemplo mais conhecido é o das crianças com hiperatividade e défice de atenção. Outros exemplos são o comportamento explosivo (“fervem em pouca água”) ou permanentemente desafiante.

Por fim, o terceiro grupo das doenças mentais engloba as doenças que estão relacionadas com o humor. A mais comum, de longe, é a depressão.

Como surge a depressão numa criança?

A depressão é a doença mental mais frequente e afeta milhões de pessoas em todo o mundo. É uma verdadeira doença da civilização. Na ânsia de conseguir mais e melhor, muitos não conseguem lidar com o fracasso das suas expectativas e desenvolvem um estado de espírito caraterizado pelo negativismo e ausência de esperança. Doença de adulto? Nem sempre. Uma em cada quarenta crianças sofre de depressão. E se formos para a adolescência, o número sobe para um em cada dez.

Alguns estudos recentes mostram que o número de crianças e adolescentes deprimidos tem vindo a aumentar na Europa. Não é de estranhar que este facto esteja relacionado com o agravamento das condições de vida de muitas famílias. As crianças e os adolescentes são muito perspicazes e detetam com facilidade sinais de ansiedade, tristeza ou irritabilidade dos seus pais, muitas vezes motivados por dificuldades financeiras, no emprego ou fruto do relacionamento com outros adultos.

É normal uma criança estar triste aqui e ali, com ou sem razão para tal. Isso não é uma depressão, é a vida. Faz parte do ciclo da vida existirem fases melhores e piores e reagir com tristeza a acontecimentos desagradáveis é saudável e mesmo desejável. Uma criança que nunca fica triste não é seguramente uma criança normal.

A verdadeira depressão é uma situação grave em que a criança se sente inferiorizada em relação às outras, com um estado de humor negativo, muitas vezes com sentimentos de culpa. Estas crianças são incapazes de sentir algum prazer ou alegria, mesmo em relação ao que mais gostam. Este tipo de depressão interfere com o dia-a-dia da criança de uma forma marcada, refletindo-se, por exemplo, numa incapacidade para comer ou dormir.

São muitos os desencadeantes possíveis de uma depressão. A morte de um parente querido, uma mudança de casa ou de escola, os maus resultados escolares ou, nos adolescentes, o fim de um namoro. Muitas vezes estes desencadeantes apenas revelam uma personalidade depressiva que estava escondida e à espera de se mostrar. Uma doença crónica, como a fibrose quística, doença celíaca ou cancro, podem ser a causa de uma depressão. Existe geralmente alguma tendência familiar, pelo que as crianças com familiares chegados que tiveram depressões importantes estão mais sujeitas a esta doença.

Como suspeitar que uma criança tem uma depressão?

Uma criança deprimida sente-se e diz-se infeliz todos os dias. Para elas, viver é um peso, o mundo um problema, a esperança não existe. E estes sentimentos são constantes, não apenas transitórios. Algumas queixas podem alertar os pais para a possibilidade de uma depressão, como por exemplo:

• sente-se infeliz sem razão nenhuma aparente;

• não sente alegria com atividades que dantes apreciava;

• falta de energia para o que quer que seja;

• sem vontade de estar com familiares ou amigosMental-Health-Children

• sensação de ansiedade permanente;

• sentimentos de irritabilidade ou raiva;

• incapaz de se concentrar;

• alteração importante dos hábitos alimentares (muito ou nenhum apetite);

• alteração importante do seu peso (ganho ou perda);

• alteração nos hábitos de sono (dificuldade em adormecer à noite ou em se levantar de manhã);

• queixa-se frequentemente de dores no corpo, apesar de não existir evidência de qualquer doença física;

• pensa muitas vezes na morte ou suicídio.

Como ajudar uma criança deprimida?

A primeira ajuda é os pais não ficarem eles deprimidos. Lidar com a depressão de um filho é uma experiência muito dura. Os pais que estão habituados a fazer tudo pelos seus filhos, a abdicar de tantas coisas para seu benefício, têm dificuldade em lidar com tamanha tristeza sem ficarem tristes e frustrados também. É importante que saibam que a causa de uma depressão nunca é devida a apenas um fator ou acontecimento, pelo que a culpa não é de ninguém. É de um conjunto de causas, entre as quais está a tendência genética de cada um para este tipo de humor.

Em seguida é importante aceitar a situação, sem a minimizar ou exagerar. É o que é, e deve ser encarada de frente. Dizer à criança que estamos ali para a ajudar, no que ela precisar. Dizer isto vezes e vezes sem conta pode ser toda a ajuda que um pai ou mãe podem dar.

Por fim, é preciso procurar a ajuda de um profissional. Um psiquiatra infantil (também chamado de pedopsiquiatra) deve ser aconselhado pelo pediatra que habitualmente segue a criança. O psiquiatra vai entrar no mundo da criança ou adolescente e ajudá-lo a ultrapassar essa fase, por vezes com a ajuda de alguma medicação. Em mais de 80 por cento dos casos a depressão pode ser curada e a criança voltar a ter uma vida normal.

Por vezes, é necessário que o pai ou a mãe (ou ambos) procurem eles próprios acompanhamento e ajuda. Junto de amigos, familiares ou um profissional.

NOTA FINAL

A depressão é uma doença cada vez mais frequente em crianças e adolescentes, incluindo em Portugal. É uma situação habitualmente muito dolorosa para as crianças e que pode ter muitas causas, algumas não facilmente percetíveis pelos pais. Para estes é também uma situação com a qual é difícil lidar, principalmente por sentimentos de culpa ou sensação de impotência. Mas com a ajuda certa, principalmente se for procurada a tempo, tudo se pode resolver e muitas destas situações são transitórias e não deixam marcas para a vida.

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Publicado em Adolescência, Crianças, Destaques, Pais e Filhos, Partilhas, Psicologia, Psicologia Clínica